Como o pagamento de precatórios pode aquecer a economia no fim do ano

Liberação de valores judiciais reforça o consumo, estimula investimentos e ajuda a quitar dívidas em um período estratégico para o comércio e as finanças públicas

O pagamento de precatórios deve movimentar a economia brasileira neste fim de ano. Com a liberação de recursos federais e estaduais, milhares de credores passam a ter acesso a valores que estavam parados há anos, injetando dinheiro novo em diversos setores. Esse movimento tende a impulsionar o consumo, reduzir o endividamento das famílias e fortalecer a arrecadação em um momento de aquecimento natural do varejo.

De acordo com dados do Tesouro Nacional, o volume total autorizado para o pagamento de precatórios federais em 2025 ultrapassa R$ 60 bilhões, o maior montante desde 2021. Os recursos são direcionados principalmente a cidadãos que venceram ações contra a União, estados ou municípios, em casos que envolvem aposentadorias, indenizações e revisões salariais. Como boa parte desses valores é recebida por pessoas físicas, o impacto direto no consumo tende a ser expressivo.

Segundo especialistas em finanças públicas, o efeito é semelhante ao de um abono ou de um benefício temporário, com reflexos positivos no comércio e nos serviços. Boa parte dos beneficiários utiliza o valor para quitar dívidas, investir em pequenos negócios ou realizar compras de maior valor, como reformas e veículos. Essa movimentação ocorre em um período tradicionalmente favorável à economia, marcado por pagamento de 13º salário e aumento da demanda de fim de ano.

Um levantamento recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que cerca de 70% dos brasileiros pretendem gastar mais com presentes, alimentação e lazer no último trimestre de 2025, impulsionados pela melhora do crédito e pelo aumento da renda disponível. A entrada de recursos de precatórios reforça esse cenário, ampliando o potencial de consumo em cidades médias e pequenas, onde o impacto tende a ser ainda mais perceptível.

Além de movimentar o mercado consumidor, o pagamento desses valores contribui para o equilíbrio das contas públicas ao reduzir o passivo judicial acumulado nos últimos anos. Estados e municípios que atualizam seus cronogramas de quitação de dívidas judiciais ganham fôlego para planejar novos investimentos, renegociar débitos e melhorar sua imagem fiscal. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem incentivado a transparência e o cumprimento dos prazos legais, o que traz previsibilidade para credores e administrações.

No setor privado, instituições financeiras e consultorias também observam um aumento na procura por orientação sobre o uso desses recursos. Planejar o recebimento e a aplicação dos valores é essencial para evitar decisões precipitadas, especialmente em um contexto de juros ainda elevados. Especialistas recomendam priorizar a quitação de dívidas com taxas mais altas e, em seguida, avaliar alternativas de investimento de baixo risco, como Tesouro Direto e CDBs, para quem busca preservar o poder de compra.

Outro ponto de destaque é o potencial de geração de novos negócios. Muitos beneficiários utilizam parte dos valores recebidos para abrir empreendimentos, formalizar atividades ou ampliar estruturas já existentes. De acordo com o Sebrae, cerca de 20% dos microempreendedores que iniciaram empresas nos últimos dois anos usaram recursos extraordinários, como indenizações ou restituições, para financiar o início das operações. Esse comportamento tende a se repetir com os precatórios, ampliando o efeito multiplicador sobre a economia local.

O comércio e o setor de serviços devem ser os principais beneficiados no curto prazo, mas os efeitos podem se estender ao longo de 2026, à medida que parte dos beneficiários opte por investir em bens duráveis, imóveis ou aplicações financeiras. O resultado é uma circulação maior de recursos e um estímulo adicional à atividade econômica em um período de recuperação gradual da confiança do consumidor.

Com o cronograma de pagamentos em andamento e o fim de ano se aproximando, a expectativa é que a liberação de precatórios cumpra um duplo papel: atender a cidadãos que aguardavam há anos por seus direitos e contribuir para um ciclo de dinamismo econômico. Em um momento de busca por estabilidade fiscal e estímulo à renda, a regularização desses pagamentos representa não apenas uma obrigação do Estado, mas também uma oportunidade de fortalecer o consumo e os investimentos no país.